Feminismo em Final Fantasy IX

Já ouvi muita gente dizer, inclusive pra mim mesma, que feminista só reclama. Feminista só sabe reclamar da sociedade, da mídia e dos homens. Eu discordo, tanto que já fiz textos falando bem (de um ponto de vista feminista) de Jessica Jones, de Life is Strange e de Child of Light. Seguindo essa linha, vim fazer mais um post falando bem de algo com conteúdo relativamente feminista.

Final Fantasy IX é um game da série Final Fantasy que a empresa Square-Enix lançou em 2000 para o PlayStation e relançou novamente para smartphones e PCs agora em 2016. Se você quer saber se vale a pena comprar esse jogo, clique aqui e leia meu artigo a respeito disso.

Bom, Final Fantasy IX conta primeiramente a história de Zidane Tribal, um garoto de 16 anos, um vigarista profissional que trabalha para o grupo de mercenários e atores Tantalus. Tantalus não é apenas uma “empresa”, mas sim uma família, onde Baku criou todos os meninos (e Ruby) como seus filhos. Um belo dia, Cid Fabool IX (regente de Lindblum) contrata Tantalus para que o grupo sequestre a princesa do reino de Alexandria, Garnet Til Alexandros XVII.

Devoção - Um dia eu serei rainha, mas eu sempre serei eu mesma.
Devoção – Um dia eu serei rainha, mas eu sempre serei eu mesma.

O que parece uma história de donzela em perigo, o que em vários momentos é, Final Fantasy IX apresenta outro tipo de princesa do qual nós estamos acostumados, pelo menos em 2000. Garnet é uma jovem aventureira e teimosa, que entende bem de política e não quer ser uma princesa que só é bonita. Garnet decide fugir do castelo no mesmo dia em que Tantalus planejava sequetrá-la. O motivo é que Garnet quer fazer uma visita política à Lindblum, e sabia que sua mãe não a permitira. Garnet está preocupada com o comportamento de sua mãe e como ela vêm reinando Alexandria, reino do qual Garnet esta destinada a governar no futuro.

A preocupação e o amor que Garnet (posteriormente apelidada Dagger) tem pelo seu reino é tangível e é sua principal motivação. Em determinada parte do game, sua motivação torna-se entender seu passado, mas logo depois volta a ser de se tornar uma governante merecedora do título de rainha de Alexandria.

Como rainha de Alexandria, eu devo proteger o meu reino.
Como rainha de Alexandria, eu devo proteger o meu reino.

Garnet é protegida pelo Capitão Steiner e pela General Beatrix. Em Alexandria, existem dois tipos de exércitos diferentes, um com apenas soldados homens, e outro com mulheres. O que poderia facilmente se tornar uma questão de “as mulheres são o gênero fraco”, é na verdade o oposto. As mulheres de Alexandria são consideradas mais fortes e mais confiáveis do que os homens, como é dito pelo próprio Steiner a um de seus soldados. Alexandria tem uma longa história de mulheres fortes. Rainha Brahne, a própria Garnet, Beatrix e uma jovem general de 13 anos de idade, Magdalene. Magdalene tem até uma estátua no centro da cidade em sua homenagem.

Beatrix é uma das soldadas mais temidas em todo o continente Mist, por pessoas e reinos que mal a conhecem ou já viram. Durante boa parte do jogo, é literalmente impossível e faz parte da história você simplesmente não conseguir derrotá-la durante qualquer combate. Assim como Steiner, Beatrix vive um grande tormento durante boa parte do jogo, onde está dividida entre obedecer a rainha Brahne e proteger a princesa Garnet, visto que ambos fizeram votos reais para realizar ambas tarefas, nunca imaginando que uma entraria em conflito com a outra. Por ser de um ranking muito superior ao de Steiner, o conflito de Beatrix é ainda maior.

Apesar de ser considerada vilã durante boa parte da trama, a escrita do jogo nunca te faz odiar Beatrix. Temê-la e posteriormente respeitá-la são os dois principais sentimentos que a narrativa evoca no interlocutor, mas nunca ódio. E o fato de ela ser mulher nunca é considerado como fraqueza. Beatrix é uma general extremamente forte e isso basta.

Certa vez, eu matei mais de mil cavaleiros com uma mão só. Pra mim, vocês dois não passam de insetos.
Certa vez, eu matei mais de mil cavaleiros com uma mão só. Pra mim, vocês dois não passam de insetos.

As mulheres do mundo de Final Fantasy IX também de formas e jeitos diferentes. Apesar de beldades aos olhos da nossa sociedade, como Garnet e Beatrix, também temos Freya, Lani e a rainha Brahne. Freya é de uma raça de pessoas com grandes semelhanças aos ratos do nosso mundo, e por isso lida com muito preconceito e termos degradantes como “cara de rato” e “covarde como um rato”. Isso pode ser facilmente interpretado como o que latinos (chamados de baratas), negros (macacos) e asiáticos (cachorros) passam em países dominados por brancos.

Brahne é gorda e é uma personagem de grande poder político. Apesar de ter se tornado vilã por influência de Kuja, Garnet nunca ousa falar mal de sua mãe. Isso porque antes da chegada do vilão, Brahne era excelente governante e uma doce mãe para a pequena princesa. E tudo isso sendo gorda.

Lani é a única personagem de pele mais escura no jogo, infelizmente, mas acrescenta muito da mesma forma. Lani é vista como mulher forte e temida, e também como bela. Mulheres mulatas e negras só são consideradas belas se estão usando roupas super reveladoras em vários games, mas Lani não cai nesse exemplo. Infelizmente, ela é a única e não tem tanta aparição no game. Seu parceiro, Amaranth, pode ser também interpretado como negro, visto que possui dread-locks.

Outro fator interessantíssimo na trama é o gênero da personagem Quina. Quina nunca é especificado como macho ou fêmea, e inclusive é constantemente referido como “s/he” ou seja, tanto ele como ela. Quina trata-se de uma personagem não binária, que não se encaixa em nenhuma das duas definições de gênero da nossa sociedade. Quina é uma personagem muito gulosa de uma raça da qual nós não conhecemos muito, mas sabemos que existem outros personagens da mesma raça que se referem a si mesmos como homens ou mulheres, por exemplo o avô adotado de Vivi.

Quina tem algumas outras peculiaridades, como a forma como fala ou seus gostos gastronômicos. Quina gosta muito de cozinhar e sua principal motivação é conhecer comidas diferentes pelo mundo, com a incessante curiosidade se existe algo mais gostoso do que… sapo. Sim, Quina come e adora sapos. Essa é a única peculiaridade da personagem que os outros personagens consideram estranho, mas nunca seu gênero. O vilão Kuja, apesar de ser homem, possui traços físicos e gestos femininos, e isso nunca é usado de forma para degradá-lo

Por que você se preocupa com coisas tão pequenas? O mundo é um lugar bastante simples.
Por que você se preocupa com coisas tão pequenas? O mundo é um lugar bastante simples.

Infelizmente, como tudo que é bom, Final Fantasy IX tem um lado ruim. As personagens femininas, em especial as soldadas de Alexandria, comumente usam vestimentas que não condizem com sua profissão. As soldadas usam uma espécie de maiô que revela suas pernas completamente, e são elas (as mulheres) que vão em guerra contra os outros reinos… Então realmente não faz o menor sentido elas usarem menos armadura do que os homens.

Zidane também é um personagem problemático. Sua personalidade de mulherengo tem a intenção de ser engraçada, mas mais do que uma vez passa um pouco do limite. Ele fala como já usou “poções do amor” para “conseguir o que queria” com mulheres no passado, como só iria salvar Garnet porque ela era bela, passa a mão na Garnet logo no começo do jogo… E raramente ele é repreendido, ou suas ações são vistas como ruins.

Dagger! Nós somos marido e mulher, agora! Hora do beijo!
Dagger! Nós somos marido e mulher, agora! Hora do beijo!

O interessante é que posteriormente Zidane conhece a jovem Eiko, que constantemente dá em cima dele. Em várias situações Zidane fica desconsertado e incomodado, e chega a falar “é isso que eu faço a Dagger passar?” Então, não acho que seja tão problemático assim.

Em suma, Final Fantasy IX é um jogo com representação feminina muito forte e interessante, ao contrário de jogos mais atuais do que este que completa 16 anos agora em 2016.

Pode cair nesse jogo!

2 Comentários

  1. Amei esse posto curto muito Final Fantasy IX recentemente estou jogando ele, e reparei mesmo as soldadas de Alexandria são mulheres e com uma roupa muito atraente mostrando mais o lado feminino Beatrix se mostra muito forte no começo do jogo quase invencível.

    1. Também gosto muito. Sim, mesmo sendo feminina, Beatrix não deixa a desejar na força. Que bom que gostou do post!

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