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Não tira o batom vermelho

Eu acabei de ver o clipe novo da Clarice Falcão e vim escrever. Eu precisava escrever. Porque de repente tudo se encaixou e fez sentido. Meu último ano foi um inferno e não foi invenção da minha cabeça. Milhares de mulheres passam pela mesma coisa, e nenhuma é louca. Nós não somos loucas. E se eu não escrever esse relato, eu vou enlouquecer.

Certa vez eu me apaixonei por uma pessoa que não existia. Ele era uma máscara de plástico que um cara usou durante uns anos. Eu não era tão mais nova, mas era bem mais inocente e inexperiente do que eu sou hoje. Eu não sabia distinguir máscaras das pessoas. Foi aí que eu me apaixonei por um cara de discursos prontos. Um cara que era feminista, ele dizia. Que se importava comigo e com o mundo que eu estava inserida. Que me protegeria de abusos que eu já sofria. Meu príncipe encantado.

Mas ele não se apaixonou por mim. Ele queria que eu vestisse uma certa roupa, não usasse certa maquiagem e certo esmalte, que gostasse disso e daquilo, que concordasse com tudo. Talvez ele estivesse certo. Ele me oferecia uma máscara, eu deveria ter oferecido outra. Então, por algum tempo, eu dancei a música dele como uma bailarina numa caixinha de música. Quieta, sem fazer barulho, sem sair daquele círculo que foi feito pra eu dançar.

“Não gosto de batom vermelho,” ele me disse certa vez. “É nojento, coisa de puta.” Mas eu não era uma puta, era? Eu nunca havia namorado até encontrá-lo. Eu era virgem, não flertava com ninguém, não tinha Tinder, ía trabalhar de calça jeans. Ele não iria gostar de mim se eu usasse batom vermelho, então eu parei de usar. Ele não iria gostar de mim se eu fosse mais alta que ele, então eu não usava salto, também. Eu me moldei.

Homens categorizam mulheres de quatro formas: Mães, virgens, putas e cadelas

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Por toda minha vida, minha mãe e minha avó me deram batons. Quando eu era pequena, eu roubei a caixa de maquiagem da minha mãe e coloquei sombra dourada nos meus olhos e batom vermelho na minha boca. O primeiro batom que comprei com meu dinheiro foi um batom vermelho da Boticário. Era meu gosto, do mesmo jeito que gosto de vestidos, que gosto de sorvete de limão e que não gosto de acordar cedo. Mas eu não me importava em me tornar uma pessoa diferente de mim, se eu fosse ser alvo de afeto.

Eu nunca fui amada antes, nem durante, nem depois. Não por um homem, não do jeito que eu queria ser amada. Qualquer afeto direcionado à mim era à minha máscara. Ele usava uma máscara porque queria ter-me, queria transar, queria esquecer da ex. Eu usava a minha para tê-lo, porque eu estava amando.

Mas nunca estava bom. Eu não era a ex, eu não era uma aventura emocionante, eu era uma menina apaixonada. E quanto mais eu me esforçasse e mais me lapidasse, pior ficava. Eu era uma garota legal, deixava meu namorado ir pra onde ele quisesse ir. Claro, porque se eu questionasse eu era retrógrada, chata, mandona. O meu não querer dividí-lo, o meu não querer que outra pessoa ingressasse no nosso relacionamento, foi comparado à homofobia. Eu não acho que todas as pessoas nasceram pra monogamia, e não acho que todas as pessoas nasceram pro poliamorismo, também. O meu não querer experimentar era tão grave quanto homofobia. Eu era tudo aquilo que eu mais odiava.

Foi então que o teatro acabou. A farsa continuou por alguns dias, mas o teatro foi interrompido. Eu não era uma aventura o suficiente, e as coisas acabaram. Não há erro ou pecado nisso. A minha infelicidade agora se tornou alegria. Porque eu não poderia continuar fingindo pra sempre. Muito menos ele.

“Se você fosse boa mesmo, você tinha feito ele esquecer dela.” Não era uma questão de habilidade ou não. Quem gosta de sorvete de limão não vai, necessariamente, gostar de sorvete de manga. E eu era creme tentando se fazer de chocolate belga. Não funcionou, não por falta de habilidade, mas porque eu era creme.

Sozinha, consegui me acomodar de volta ao meu ninho. Minhas asas estavam cansadas, e ainda estão. Descansei e tirei as amarras. Voltei a usar batom vermelho, tingi meu cabelo de vermelho, pintei minhas unhas de vermelho, comprei um salto vermelho, me vesti de vermelho. Fiquei mais monocromática que Carmen Sandiego, não por rebeldia, mas porque eu era assim antes. Eu não precisava me machucar pra que eu me amasse, então só voltei a ser o que era.

Olha essa puta da Penélope Charmosa

O que foi visto como ato de rebeldia. Todo o meu ser havia se tornado um ato de rebeldia pra quem estava disposto a ver isso. Tudo o que era meu eu verdadeiro, virou “mudança”. “Mulher quando pinta o cabelo é porque quer mudança.” Minha personalidade passiva para agradar voltou a ser agressiva e respondona. Todas as minhas respostas e reações, que para a minha mãe não eram novidade, foram vistos como “ela não está sabendo lidar.”

A pessoa por trás da máscara despertou a pessoa por trás da máscara dele, também. O meu espírito desconhecido me apresentou o espírito desconhecido dele. E tudo o que eu amava nele foi jogado fora, no lixo. Nunca foi real. Ele começou a demonstrar como realmente era, o que realmente achava das coisas. Hoje em dia fala coisas como “mas ninguém luta pra mulher se alistar no exército,” “eu vou chamar ele de preto sim mesmo se ele não gostar: ele é preto,” “foda-se se ele acha que é mulher, quando morrer vai ter ossada de homem.”

Com o tempo fui entendendo o machismo por trás do que ele costumava falar, que eu era menina pra namorar e que as outras que ele costumava sair, não. Eu sofri com isso, e como sofri. Eu nunca fui uma mulher de expectativas altas, mas ele conseguiu ser minha maior decepção. Quando falam de feministo, de esquerdo-macho, é logo nele que eu penso. Isso me causa dor. Uma dor imensa.

“Você é louca.” E mentirosa. E ladra. E desleal. E louca, de novo. Puta ele não me chamava, até porque as olheiras chamavam mais atenção do que o esmalte vermelho descascando. Tudo isso acontecendo na frente de um grupo grande de pessoas que, ao invés de apontar os reais problemas, colocava a culpa nos dois. Tudo o que eu ouvia, era mal interpretado. Tudo que eu falava, era maldade. O que eu via, não existia. Minha sanidade foi questionada por mais de 10 pessoas.

“Você tem que ter mais paciência com ele.” Tem que ter mais paciência com quem te ofende no ambiente de trabalho, com quem questiona sua sanidade? Com quem brinca com seus distúrbios alimentares? Com quem brinca com estupro, mesmo você falando diversas vezes que não quer ouvir esse tipo de brincadeira? “Isso, você não tem senso de humor.”

Quando vi o movimento do “não tira o batom vermelho,” minha esperança foi renovada. Não era só comigo, então? Eu não era a única puta mentirosa e louca no mundo. Eu não era a única que achava que eu ficava bonitinha de batom vermelho, então queria usar batom vermelho.

Se eu estivesse sozinha, eu teria me destruído. Eu cheguei bem perto disso. Eu tinha medo de me afastar, mas consegui. Eu me afastei. Achava que fazendo isso, estava perdendo a guerra. Mas é melhor viver em paz consigo mesma do que em eterna batalha com um machista.

Disseram que nós nos encontramos na época errada da vida, que somos perfeitos um pro outro, que um dia nos resolveremos. Eu não sei em que época da minha vida eu aceitaria um machista ao meu lado, mas eu espero que chegue a época em que ele amadureça suas idéias “de esquerda.”

E que isso aconteça longe, bem longe de mim. Porque em todas as épocas da minha vida, eu estarei de batom vermelho. Com cara de puta, nojenta, louca, mentirosa. E muito louca. E muito puta.

E vou usar do jeito que eu quiser

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