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Eu assisti: Bohemian Rhapsody

Alguns dias atrás eu assisti ao filme Bohemian Rhapsody’, uma biografia um pouco fantasiosa sobre tanto Queen quanto Freddie Mercury. Digo que é uma biografia de ambos porque não vemos os primeiros anos de Freddie. O filme começa com o nascimento de Queen e termina com a morte de Freddie, mas é puramente focado no vocalista, tendo a presença dos outros integrantes como personagens secundários.

Infelizmente, o filme não tem a “verdade” como coluna vertebral da obra. ‘Bohemian Rhapsody’ é plenamente ‘assistível’ e eu diria que até divertido e emocionante. Mas a linha-do-tempo do filme é confusa e incorreta. Bom, vamos lá?

Pontos fortes

Antes de partir para as inconsistências, eu gostaria de falar dos pontos fortes do filme. Apesar dos erros, se tornou meu filme predileto de 2018 e reascendeu a chama do meu amor pelo Queen.

Atuação de Rami Malek

Com o sucesso que o filme vem fazendo, é difícil imaginar Rami Malek não ganhando pelo menos algumas indicações de melhor ator pelo papel. Claro que muito pelo papel de quem o maquiou, mas haviam cenas que eram difíceis de distinguir realidade de dramatização, tamanha semelhança na aparência e comportamento.

Freddie, Mary e o mundo

Freddie teve durante sua vida uma relação muito… curiosa com sua ex-namorada, Mary Austin. Ou, ex-esposa, afinal de contas Freddie dizia que considerava-a sua esposa durante os anos que ficaram juntos. Todas as falas sobre o amor de Freddie por Mary no filme são, de fato, reais. Freddie comentou em entrevista que dizia a seus amantes que, por mais que Mary e ele não estivessem mais juntos, eles nunca poderiam substituir seu amor por ela.

E o amor continuou durante anos. Freddie escreveu Love Of My Life para Mary, comprou-a uma casa perto da sua para que pudessem continuar perto, é padrinho do primeiro filho de Mary (morreu antes do nascimento do segundo) e deixou 50% de toda sua fortuna e royalties para ela. “Você teria sido minha esposa, e teria ficado com tudo de qualquer maneira,” deixou em seu testamento.

Todos os meus amantes me perguntam por que eles não conseguem substituir Mary, mas isso é simplesmente impossível. O único amigo que eu tenho é Mary, e eu não quero mais ninguém. Pra mim, ela foi minha esposa. Pra mim, foi casamento. Nós acreditamos um no outro, e isso é suficiente para mim.

New York Post

Mesmo amando-a de forma incondicional, isso não impediu que Freddie traísse sua amada diversas vezes com homens (e talvez mulheres). Isso fez com que eu imaginasse que diferentemente de Mary, Freddie não achava que amor e sexo eram duas coisas que deveriam necessariamente andar de mãos dadas. O filme, e suas declarações em vida, nos levam a crer que, se socialmente aceito, Freddie teria se casado com Mary e mantido seus affairs. Não porque ele não amava Mary, muito menos porque ele amava seus amantes. Me parece que Freddie acreditava que amar alguém e transar com outra era como amar alguém e almoçar em um restaurante.

A família Queen

Quando pensamos em Queen, imediatamente nosso cérebro trás a imagem de um certo bigodudo na nossa cabeça. Mas Queen tinha mais três membros: especificamente Brian May (guitarrista), Roger Taylor (baterista) e John Deacon (baixista).

E apesar da banda conter um dos, aparentemente, maiores egos da história da música, o grupo Queen parecia de fato uma família. Apesar das brigas, mais mencionadas do que de fato apresentadas, o grupo respeitava muito um ao outro, produzindo canções sobre carros e gatos mesmo quando achavam que não daria em nada, em amor e respeito aos companheiros. Eles complementavam as ideias um dos outros, se fortaleciam e faziam os outros se esforçarem mais e mais.

Freddie não era a única cabeça pensante da banda, como a história acabou fazendo parecer. Diversas músicas são creditadas aos outros membros e o filme mostra bem isso, como We Will Rock You por Brian, Under Pressure por Roger e Another One Bites The Dust por Deacon.

He’s just a poor boy from a poor family

Apesar de eu achar que tenha sido pouco explorado, foi muito interessante ver a vida e realidade da família imediata de Freddie. Eu nunca soube que Freddie Mercury não era seu nome de nascimento, apesar de estar familiarizada com o conceito de nome artístico. Sempre imaginei que Freddie fosse um ícone britânico de nascimento, e achava estranho a Rainha Elizabeth nunca tê-lo feito sir. Mas, agora graças ao filme, entendo porquê. Freddie Mercury nasceu Farrokh Bulsara, no Sultanato de Zanzibar, hoje Tanzania, na África. A família era praticante de zoroastrismo, religião persa, uma das mais antigas do mundo.

Mesmo assim, gostaria de ter visto mais sobre a realidade da sua infância. Entendo que seus pais não estejam mais vivos para contar a história, mas acredito que sua irmã esteja. E existem maneiras de descobrir as coisas. Mesmo assim, o filme se foca na história de Freddie a partir do nascimento da banda, finalizando com sua apresentação no Live Aid e seu diagnóstico.

Ícone LGBT não militante

Freddie Mercury é um dos ícones LGBT mais famosos no mundo, parcialmente pelo G e também pelo B. Mas nunca foi militante, muito longe disso. Homossexualidade deixou de ser crime em 1967, quatro anos antes da formação da banda. Além de ser de família extremamente religiosa, esses motivos fariam qualquer pessoa na mesma situação ter medo de se expor demais, apesar de que isso nunca impediu que Freddy curtisse a vida noturna inglesa. Existem até relatos que Freddie foi à baladas gay com a então princesa Diana.

Mas sua falta de militância LGBT e sua morte precoce pelo HIV só humaniza mais o astro. Com tantos hits em seu crédito, tantos escândalos, dinheiro e fama, o simples fato de sair do armário é um ato político. Ato político que Freddie nunca fez: ele nunca admitiu publicamente ser gay ou bi, e só admitiu que era HIV positivo 24 horas antes do seu falecimento, em 1991.

Inconsistências

Encontro de Freddie e Jim

Por algum motivo, talvez para economizar tempo de tela, o filme apresenta Jim Hutton como funcionário de Freddie, provavelmente terceirizado por alguma empresa de limpeza. A dupla, que mais tarde se tornaria um casal, passa a noite conversando, onde Jim planta uma sementinha de amor próprio no coração de Freddie. Bom, a realidade é outra.

Jim não trabalha com limpeza, e sim com estética. Jim era cabeleireiro e conheceu Freddie em uma casa noturna LGBT em Londres. No filme, o relacionamento é apreçado e não parece natural. Eles se reencontram e Freddie o apresenta aos pais de maneira romântica, mas nós assistindo ficamos confusos. É tudo muito rápido.

Na vida real, Freddie oferece comprar um drink para Jim, que não reconhece o astro e não aceita. Um ano e meio depois, em 1984, a mesma situação acontece e Jim aceita. Pouco tempo depois, Jim e Freddie estavam morando juntos, usando um par de alianças como de casamento. O casal tinha uma vida muito privada, com fotos tendo apenas ficado públicas em 1995, quando o livro “Mercury e Eu” foi publicado.

Jim conta como Freddie massageava seus pés depois que ele voltava do trabalho, e como Jim cuidou de Freddie durante seus 7 anos juntos, até o último dia de vida de Freddie.

Live Aid como um todo

Boa parte das inconsistências do filme existem dentro do sub-plot do Live Aid. Por serem muitos, vamos direto aos fatos: Paul não impediu Freddie de participar do Live Aid, ele foi demitido depois do show. Existiam desavenças entre o “assistente” e os membros da banda, mas nada que tenha afetado a apresentação.

A banda não se separou antes do Live Aid. Aliás, Queen nunca se separou. Eles tiveram logos hiatus após décadas de tours, mas nunca se separaram formalmente. A banda ainda existe com dois membros, Brian e Roger, tendo Deacon saído por questão de ter se aposentado em 1997.

Albums solo nunca foram taboo dentro da banda, e Freddie não foi o primeiro a assinar um contrato solo. Roger, o baterista, foi o primeiro a fazer música independente da banda e isso não foi motivo para briga.

Freddie Mercury não teve sua situação como HIV positivo como motivador para a apresentação no Live Aid. Live Aid foi em 1983, e especula-se que Freddie foi diagnosticado em 1985. Seu diagnóstico também não foi motivador para que Freddie começasse a namorar Jim. Seu relacionamento começou em 1984, e eles não namoravam durante o Live Aid.

Personagem de Mike Myers não existe

Apesar de extremamente interessante e engraçado, o personagem de Mike Myers simplesmente não existe. Existiu, na verdade, um produtor que era muito fã da banda. A única coisa que os dois tinham em comum era que os dois se preocuparam com o conceito de Bohemian Rhapsody e como era arriscado lançar uma música de cerca de 6 minutos. Mas isso não impediu o produtor da vida real, que apostava na banda.

Menção honrosa

Freddie Mercury amava gatos. Nos anos 70, Mary comprou um par de gatinhos e assim introduziu Freddie ao mundo dos amantes de gatos. Segue abaixo a lista de todos os 10 gatinhos (que eu tenha encontrado) que Freddie teve, com seus nomes mais que adoráveis:

  • Tom e Jerry, a duplinha que Mary comprou
  • Tiffany
  • Dorothy
  • Delilah (a mais mimada)
  • Goliath
  • Lily
  • Miko
  • Oscar
  • Romeo

Os gatos tinham suas próprias meias, tradição inglesa no natal, recheadas de presentes, como comidinhas e brinquedos.  Na sua última entrevista, Freddie revelou que deixaria tudo para Mary e os gatos, “seus grandes amores”.


Um pequeno disclaimer que sinto necessário fazer: este post é apenas sobre o filme, e não sobre Freddie Mercury ou a banda. Queen é minha banda favorita, e Freddie Mercury é um grande ícone na minha vida. Pretendo um dia fazer um post, ou talvez mais, dedicado a ambos.

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Moro em Bauru, interior de São Paulo, tenho 22 anos e trabalho com design desde 2012. Sou apaixonada por games e literatura. Estou tentando viver uma vida saudável, mas minha paixão por McDonald's dificulta tudo.

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