Desabafo

Treze

O nome dela era Luna. Era uma labradora, nascida em Pederneiras, em 2006. Treze anos atrás, eu tinha treze anos. Lembro dela entre os outros filhotes, com a patinha cruzada. A dona do casal responsáveis pela ninhada havia apelidado-a de Elizabeth, por conta de quão elegante ela era.

E elegante ela foi. Até ontem, quando ela faleceu. Eu tinha treze anos quando a gente se conheceu. Ela tinha treze anos quando a gente se despediu.

Fazia essa cara pra duas coisas: biscoito e pão

Lembro de minha família toda indo até Pederneiras buscá-la. Era tão pequenininha, cabia em uma caixa de sapato. Era uma labradora branca, uma raridade. O tempo passou, e como dama que era, foi classificada como “labradora champagne”.

Infelizmente as fotos da infância dela foram perdidas, tendo sido arquivadas no não muito confiável servidor do Orkut. Luna teve suas fotos publicadas em várias eras das redes sociais. Orkut, Twitter, Facebook, Tumblr.

Uma foto sobrevivente dessa era, sobrevida proporcionada por uma impressora

Animais são irracionais, sei disso. Mas como pode um animal irracional nos ensinar tanta coisa? Luna me ensinou a amar. Um amor diferente. Eu sou a filha mais nova, a sobrinha mais nova e a neta mais nova. Nunca tomei conta de ninguém, nunca vi ninguém como dependente meu.

E apesar de a Polly ter sido a real primeira criatura completamente dependente de mim, a Luna foi quem plantou no meu coração a semente do cuidar. De certa forma, da maternidade.

Aos seis anos, em 2012, Luna teve um problema muito grave no útero. O que aconteceu naquele fim de ano mudou completamente a minha família. O medo de perder a Luna desencadeou na minha mãe um problema que ela teve que se medicar durante muitos anos, ansiedade. De madrugada, eu ia ver se ela estava respirando. Passava pomada na cicatriz da cirurgia. Molhava seu focinho. Elegemos que Luna seria a primeira cachorrinha a dormir dentro de casa.

una com o cone da vergonha, depois da cirurgia de remoção do útero

E lá ela ficou. Ganhou um colchãozinho e carinhos diários de todos os membros da família. Viu meu irmão sair da faculdade, sair de casa. Me viu fazer o mesmo. Ganhou presentes de natal, dormiu na cama com meus pais. Um amor que nunca, nenhum de nós sentiu antes. E que agora sentimos por todos os cachorros, por todos os animais.

Luna me fez mais gentil. Me fez mais amável. Mais cuidadosa. Luna me faz querer ser vegetariana. Luna me fez pegar a Mel, depois a Polly. Fez minha mãe pegar a Eichi.

E um dia ela parou de respirar. Estava com câncer. Acreditamos que apesar da cirurgia, o câncer provavelmente se espalhou por todo o corpo. Tinha um tumor no olho e muita dificuldade pra respirar. Estava ficando cega. Cada dia as tarefas que ela mais gostava ficavam mais difíceis. As vezes, só dormia o dia todo. E agora ela vai realmente descansar.

Voltava do petshop com enfeite na cabeça

Luna, sei que você já se foi, e que mesmo se estivesse aqui não conseguiria enxergar o que estou escrevendo. E que obviamente, nem saberia ler. Mas você foi uma cachorrinha fantástica. Você mudou todos nós. Você sempre viverá nos nossos corações, e da Mel também, que foi sua filha de criação.

Não acho que esse texto te faça justiça. Você sabia se comunicar com o olhar. Sabia quando se aproximar de mim pra me consolar quando eu estava triste. Sabia mostrar onde estava o dodói pra minha mãe. Aceitou e cuidou da Mel com a paciência que lhe era cabível. Você foi gigante.

Te amamos muito, Luna. Descanse em paz.

Primeira foto que publiquei no Instagram, 20 de agosto de 2011
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Moro em São Paulo, tenho 26 anos e trabalho com design e desenvolvimento web desde 2012. Sou apaixonada por games e literatura, mas as duas coisas que eu mais amo no mundo são cachorrinhos e qualquer coisa cor-de-rosa.

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